Choque de realidade

Essa história me aconteceu ontem, ainda está bem fresca (ui!) na memória e me marcou muito. É mais um texto baitola do tipo “meu querido diário”, mas dessa vez me senti obrigado a escrever, dadas as circunstâncias sobrenaturais… Confira.

Essa foi uma semana bem atípica.

Com o lançamento do MiGuXeiToR na terça-feira, passei o resto dos dias fazendo um monitoramento alucinado de toda a repercussão que ele causou. Acompanhei sites, blogs, comentários, MSN, Orkut, relatórios de acessos, número de cliques em anúncios, posicionamento do texto e do blog aqui no ranking do WordPress…

Enfim, foi meu primeiro “viral” e coletei o maior número de dados que consegui para depois tentar entender todo o processo. Mas isso eu detalho em um outro texto.

O que eu gostaria de frisar agora é que essa foi uma semana meganerd. Passei os dias em frente ao computador, quase não saí de casa. Na sexta-feira bateu uma frustração quando olhei para trás e vi que perdi os últimos dias acorrentado à máquina. E foi tudo muito rápido, a semana passou em um piscar de olhos.

Sábado (ontem), no fim de tarde, fui ligar a bateria do carro* para subir a serra e ir à Curitiba, participar da despedida do Fejão. Ele é meu amigão desde os tempos de CEFET, baixista e vocalista do Dumbs e Correria HC (minhas bandas), parceiro de carve, skate e viagens. Está indo para a gringolândia por uns tempos.

* Ah sim, tenho um Uno tosco e ele fica parado a maior parte do tempo. Só uso para ir à Curitiba, o que acontece cerca de uma vez por mês. Então sempre desligo a bateria dele quando chego, para evitar que ela descarregue. Em Matinhos só uso bicicleta, pois a cidade é pequena e plana. Em uma palavra: libertador.

De bateria ligada, era perto das cinco da tarde quando eu estava lá no posto de gasolina da saída da cidade, calibrando os pneus do carro. Chegou um senhor que aparentava uns 50 anos, com roupas bem simples e surradas, sem mochilas nem sacolas, pele enrugada do sol. Perguntou para onde eu ia e me pediu carona até a Colônia Pereira (uns 20km dali, perto do posto policial), pois tinha perdido o último dos três ônibus do dia.

Meu instinto curitibano paranóico acendeu todas as luzinhas de advertência, tocou o alarme e ficou gritando:

  • PERIGO!
  • Cuidado!
  • Ladrão!
  • Seqüestrador!
  • Morte!
  • Ritual satânico!

Mas como já moro na praia há um ano e meio, hoje sou um cara mais sossegado e a paranóia desceu várias posições na minha lista de prioridades. Ignorando as luzinhas, respondi: “Sim, claro!”.

Simpático e falador, fomos conversando no caminho e ele me contou histórias de lugares onde trabalhou e viveu.

Ao ver duas mudas de pimenta, que eu estava levando para o meu padrasto Gabriel (eu sempre, SEMPRE fico na dúvida se é “paDRasto” ou “padasTRo”), ele disse que plantava pimenta e queria me dar algumas de presente. “Vamos lá no meu sítio”. Era só sair da rodovia e entrar em uma estradinha de chão.

  • Luzinhas de novo!
  • Mais perigo ainda!
  • Ninguém sabe que você está aqui!
  • Vai entrar com o carro no meio do mato!
  • Você nem conhece esse cara!
  • Pssssst. Quieto seu curitibano bundão.

Ele abriu a cancela de madeira e arame farpado e estacionei o carro dentro do sítio. Pegou uma sacola e foi até um pé de pimenta. Colheu algumas. “Ah, aqui tem uma outra pimenta muito gostosa, ela tem três cores”. Colheu várias da pimenta colorida. Andou mais um pouco e agora era um terceiro tipo de pimenta. A sacolinha ficou farta.

Então caminhamos por todo o sítio (gigante), acompanhados pelos seus dois cachorros e um gato, onde ele orgulhosamente me mostrou suas plantações (abacaxi, banana, fruta do conde, mamão, café, alface, mandioca, cana-de-açúcar, …), seus três tanques de peixe (que ele fez sozinho, na enxada), sua “praia” particular (um córrego com areia, bom para tomar banho no verão), o lugar de onde ele tirou areia para construir a cozinha da casa, …

Vixe, ficamos mais de meia hora andando e vi muitas coisas, tudo feito e cuidado por ele próprio, sozinho. Sem trator nem ajudantes, tudo na mão e na raça. João era seu nome. Seu João, memorizei.

Me convidou para entrar em sua casa (que foi ele quem fez). Cozinha de alvenaria com fogão à lenha, o resto era de madeira (tábuas coloridas, sem tinta). As paredes e o teto do canto do fogão estavam completamente pretos, de fumaça acumulada com o uso. Não havia chaminé. A única torneira da casa era na pia, uma ponta de cano que jorrava água sem parar o dia todo.

“Vem direto do morro, limpinha!”, dizia entusiasmado.

Conheci sua mulher Rosana e seu filho Wellington. Conversamos sobre a vida no sítio e na cidade, sobre vários tipos de passarinhos, sobre natureza. A mulher era bem tímida. O piá devia ter uns 11 anos, era bem esperto e falador, contou histórias de seu cachorro que brincava com uma cobra de dois metros, do gato filhote que chegou e ficou, do passarinho gigante que tinha visto semana passada e do orquidário que planejava fazer ali.

Estava escurecendo e as butucas começaram e me morder. Então me lembrei que ainda tinha uma viagem a fazer!

Antes de eu sair ainda me deram mandioca cozida fresquinha para comer (muito boa), e além das pimentas ainda ganhei um potão de melado, feito com a cana colhida, moída e cozida ali no sítio.

Pimentas e melado

Seu João durante a conversa me falou várias vezes para voltar lá com toda a família e passar uns dias com eles. “Traga seus pais, seus irmãos, eles vão gostar”.

Me despedi e voltei para o asfalto solitário.

Fiquei pensando em como essa família tinha uma vida simples, autônoma e, pelo que pude notar, feliz. Falavam com muito orgulho sobre as coisas do sítio e as vantagens de se morar no mato. Me deram comida e presentes sem pedir nada em troca. Seus sonhos e planos de vida eram todos bem simples, que R$ 30.000,00 realizariam com folga.

Quanto vale mesmo um carro “popular” hoje?

Depois fiquei pensando em como eu fui cair no meio disso tudo. O posto, a carona, as mudas de pimenta. Não estava planejado, eu só ia para Curitiba e pronto. No fim fiquei mais de uma hora lá no sítio e conheci em detalhes uma realidade que está bem longe da minha, mesmo eu morando em uma cidade pequena e pacata como Matinhos.

Saí do sítio com a sensação que nada disso aconteceu por acaso. Sinto que foi Deus quem colocou o Seu João no meu caminho e que esse choque de realidade, depois de uma semana de overdose virtual, era necessário.

Comecei a acreditar em Deus no ano passado. Nem contei né? Preciso fazer um texto sobre isso qualquer dia, é uma boa (e longa) história…

Essa história toda me marcou muito e me fez pensar em minha própria vida, sonhos e objetivos. O resto da viagem foi uma introspecção.

Sinto que esse encontro inesperado foi um sinal divino. Divine Intervention, como diria o Slayer… Só não tenho certeza do que era para eu entender ou fazer. Essas linhas tortas são difíceis de ler.

E por mais bizarro que pareça, quando eu estava lá dirigindo e pensando sobre tudo o que tinha acontecido, o blog me veio na cabeça. Mas hein? O blog? Ué… Ah! Já sei, tenho que contar essa história. É isso? Acertei?

Bem, se acertei ou não, cá estou :)

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