Game Over? Quase!

No Natal do ano passado, embalado pelo clima consumista desenfreado tão comum da época, me dei de presente um Wii.

Foi até estranho comprar um videogame, pois o último que tive foi um Super Nintendo, que parei de jogar há pelo menos uns 10 anos atrás. Desde então, o jogador compulsivo que reside neste corpo, ficou adormecido, indiferente e apático à geração PlayStation e seus jogos 3D enormes e chatos.

Meu histórico de jogador começou na infância, com o saudoso Atari. Minha mãe realizou nosso sonho, meu e da minha irmã, de ter um videogame. O console era caro, e os jogos também. Então a mãe alugava cartuchos (é, os jogos vinham em cartuchos) numa lojinha chamada Cobra Video, e nós tínhamos 24 horas para aproveitar ao máximo o joguinho da vez.

Teve um dia que a mãe trouxe, sem saber o que era, o jogo X-man. Era um jogo, digamos, pornográfico. Se é que alguém pode excitar-se com retângulos coloridos… Mas eu era criança e aquele foi provavelmente o meu primeiro contato com algo do gênero. Chamei os vizinhos e, de olhos arregalados, vibrávamos e ríamos muito nas cenas de “bônus” ao final de cada labirinto, quando o retângulo masculino brincava com a retângula feminina :) Com a barulheira que fizemos, logo a mãe percebeu que tinha algo errado e quando viu o que era, arrancou o cartucho (sem desligar o videogame — isso era muito ruim) e depois de brigar conosco, foi enfurecida na loja brigar com o atendente, por ter lhe dado aquele jogo sujo. E viva os anos 80! \o/
Fotos do X-man
Jogue o X-man pelo navegador

Anos depois, ganhamos um nintendinho (NES, 8 bits). Ele tinha dois botões no controle! Podia pular e atirar! Aquela cruzinha foi difícil de acostumar, o manche do controle do Atari era mais fácil de usar. Junto com o videogame vinha o jogo Super Mario Bros., e desde então, um encanador nanico bigodudo comedor de cogumelos alucinógenos (que o fazem sentir-se um gigante), faz parte de minha vida. Olha… Isso forma o caráter de uma pessoa :)

A mãe dava mesada. Minha irmã gastava tudo em doces e eu guardava. A mãe dizia que se eu guardasse poderia comprar coisas maiores. Ela dizia também que comprar dólares fazia o dinheiro aumentar. Então eu “comprava” dólares dela com minha modesta mesada e ela guardava os meus dólares. Meses, talvez anos depois, minha primeira compra com os dólares foi um Game Boy.

Hoje o dólar não é um bom investimento, mas na época (anos 80), era. Eu lembro que ela me mostrava a cotação do dólar, eu fazia as contas e anotava todo mês quanto eu tinha na “poupança”. Era legal ver o dinheiro aumentar!

Lembro até hoje como eu ficava horas jogando o Super Mario Land do Game Boy, naquela maravilhosa minúscula tela que só mostrava tons de verde. Se não era Mario, era Tetris, com as musiquinhas (beep beep) animadas. O objetivo era terminar no nível mais difícil, pra no final ver um foguetinho subindo. Na locadora não tinha cartuchos de Game Boy, então foram pouquíssimos jogos que consegui jogar no brinquedo.

Um tempo depois, veio a era dos 16 bits, que trazia gráficos muito melhores e jogos mais radicais. Radical era uma palavra massa dos anos 80, pena que ela morreu :) Não lembro se consegui sozinho com meus dólares, ou se a mãe completou, mas mais uma vez rapei as economias de mesada e comprei um videogame: Megadrive. Acho que era o jogo Altered Beast que vinha com o console, nem era tão bom assim, mas foi uma revolução comparado com o NES e Game Boy que eu estava acostumado.

Nesta época comecei a ler as revistas de videogame (Supergame e Ação Games, se bem me lembro), que me deixavam com água na boca para jogar os últimos lançamentos. As locadoras, por sua vez, tinham evoluído e traziam rapidamente os lançamentos, tornando muito fácil a manutenção do vício de jogar joguinhos. O preço da locação era bom, cabia na mesada, então iniciei um ritual que realizei durante muito tempo, que era:

  1. Vai na locadora na sexta-feira.
  2. Pega dois jogos (assim só precisava devolver na segunda-feira).
  3. Joga o primeiro jogo até terminá-lo no nível Normal de dificuldade.
  4. Joga o segundo jogo até terminá-lo no nível Normal de dificuldade.
  5. Se ainda der tempo, termina o primeiro jogo no nível Difícil.
  6. Se ainda der tempo, termina o segundo jogo no nível Difícil.
  7. Se ainda der tempo, termina o primeiro jogo no nível Médio, sem usar “continue”.
  8. Se ainda der tempo, termina o segundo jogo no nível Médio, sem usar “continue”.
  9. E assim vai, cada vez aumentando mais o desafio, até chegar o domingo à noite.

Meu objetivo principal era terminar os dois jogos, isso era obrigatório e tinha que ser no nível normal de dificuldade. Feito isso, em vez de largar o jogo eu ficava lá tentando melhorar a marca: terminar no difícil, depois sem perder continues, depois sem perder vidas e depois sem perder risquinhos de energia… Meu final de semana era dedicado aos jogos, eu me internava no quarto em frente à televisão de 14 polegadas.

Um tempo depois, chegou no fliperama ali perto de casa uma máquina que mudou a vida de muita gente: Street Fighter II. Era tudo muito novo, pra começar, eram incríveis SEIS botões para controlar o personagem, além do manche direcional. E não somente um, mas OITO personagens para escolher, cada um com seus próprios golpes! E ainda tinha um que era do Brasil! E tinha música de qualidade, não era bipe! E havia umas combinações esquisitas pra soltar golpes poderosos, como meialua+soco e baixo-cima+chute! E…! Jogar aquela máquina era uma realização, um sonho de qualquer jogador da época. Sempre havia muita gente ao redor da máquina, assistindo, torcendo, xingando, esperando a vez… uma zona.

Eu já namorava o tal Super Nintendo (SNES) há algum tempo, mas era muito caro para minhas economias. Porém, quando lançaram o Street Fighter II pro console, eu pirei. Eu podia jogar em casa aquele jogo animal lá do fliperama! Aí não teve jeito, não sosseguei enquanto não fomos pro Paraguai comprar o videogame e o jogo. Vendi o Game Boy e o Megadrive pra juntar o dinheiro, e foi uma troca que eu nunca me arrependi, pois o SNES era tudo o que eu imaginava e mais um pouco.

Lembro que foi um estresse até chegar no hotel e conseguir testar o videogame e o jogo. Naquela época (ainda hoje?) haviam muitas histórias de pessoas que foram enganado em lojas do Paraguai e voltaram para casa com uma caixa com pedras ou com produtos defeituosos. E se o console não funcionasse? E se o cartucho fosse pirata? Felizmente, tudo deu certo :)

O ritual de alugar jogos no final de semana, continuou. Foram muitas e muitas horas de minha vida investidas em aventuras digitais de todo tipo, de Mario a Castlevania, de Simpsons a Final Fight.

E olha só, acho que eu já era nerd desde criança, pois eu tinha um caderninho onde ia anotando os jogos que já tinha terminado. Anotava também qual o nível de dificuldade, se foi sem continue, quantos pontos fiz… É muita falta de ter o que fazer! :D

Uns tempos atrás achei esse caderno e coloquei lá no site a lista dos jogos terminados. Revirei agora minhas caixas aqui, mas não achei o caderno pra tirar foto. Pena…

Então, mas o tempo passou e quando cheguei na adolescência, o videogame perdeu lugar para a música, pois comecei a tocar bateria, depois tive bandas, e os finais de semana eram dedicados a incomodar a vizinhança com nossos ensaios desafinados :)

Junto a isso, as novas gerações de consoles que vieram depois do Super Nintendo não me chamaram a atenção. Eu achava aqueles jogos 3D um saco. Eu ficava lá feito um mané, andando perdido por um mundo virtual enorme, e nada de interessante acontecia. Cadê a diversão? Que saudade do Super Mario que você só vai pra frente e pra trás e pula.

Outro ponto que me afastou dos jogos novos foi a complexidade e realismo. Tudo estava ficando perfeito demais, parecia filme. Jogo pra mim sempre foi o oposto disso: o lúdico, o colorido berrante, o irreal, o impossível, o tosco, o pixelado, onde é a sua imaginação que complementa o universo criado na tela da TV. Se eu quiser realidade, saio na rua, certo?

Então foi isso, minha “carreira” de jogador acabou no Super Nintendo.

E ia continuar assim se não fosse lançado aquele videogame esquisito que trazia joguinhos simples, toscos, extremamente divertidos e que você fazia o movimento e ele repetia na tela! Me dá 3 desse!!! :D

Bem, essa foi a minha história.
E a sua?
Conta pra gente ali nos comentários!

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