Funcionário Público

Eu nunca quis ser funcionário público.

Como praticamente toda a minha família é de funcionários públicos (mãe, pai, padrasto, irmã, tios, tias, avô…), desde criança sempre ouvi histórias indignantes que eles contavam sobre o lado ruim do funcionalismo: morosidade, politicagem, pilantragem, desperdício, dinossauros…

Minha mãe era uma chefe “durona”, que botava todos pra trabalhar sério e lutava por mudanças, mas sofria para conseguir melhorar, modernizar, informatizar as coisas. Tudo era muito difícil de fazer acontecer. Mas apesar de tudo, até hoje ela valoriza a carreira pública e sempre sonhou que um dia eu também a seguisse.

Porém, eu sou a ovelha negra da família, sou o desajustado.

Além de ter aversão ao funcionalismo, eu também me ejetei da iniciativa privada e decidi seguir um estilo de vida hippongo-alternativo: fui desempregado por opção durante 8 anos.

Até que…

Num belo dia, estava eu em casa, feliz, curtindo minha vida de desempregado, trabalhando em algum de meus projetos pessoais. De repente, minha querida esposa Mog me diz:

— Ah, você tem um concurso pra fazer este domingo, tá?
— Como assim???!?!?111¡¿

Isso foi em 2009. Sem eu saber, a Mog me inscreveu no concurso da prefeitura de Joinville. Ela só me contou na última hora e me convenceu a ir fazer a prova.

“Vai, sem compromisso, só pra ver como é a prova…”

Fiz a prova de cabeça fria, sem a pressão do “tenho que passar” e até que fui bem. Me classifiquei em 21º na vaga de Analista de TI. Como eram somente 9 vagas e eu estava longe na fila, esquecemos desse concurso.

— ∞ —

Pula quatro anos, para agosto de 2013.

Continuo feliz na minha vida de desempregado. Toca o telefone, era do RH da prefeitura. Eu nem lembrava mais desse concurso. Meu interesse nele continua zero. Mais uma vez, a Mog, manipuladora master, me convenceu a ir:

“Pelo menos vá lá conversar para saber como é a vaga. Você não é obrigado a aceitar.”

Fui. Minhas expectativas eram as piores possíveis:

  • Deve ser uma vaga de suporte técnico.
  • Deve ser tudo Windows.
  • Deve ser um bando de véios dinossauros.
  • Devem programar em COBOL ou algo assim.
  • Deve ser uma mamata com muito tempo ocioso.
  • O chefe deve ser um político sem noção.
  • As decisões devem ser políticas e não técnicas.

Para minha total e completa surpresa, nada disso se confirmou.

A vaga era para o setor de Desenvolvimento de Software (na mosca), com expediente de 6h/dia (sobra tempo pros meus projetos) para programar (perfeito) em Ruby on Rails (massa), PHP (ok) e ASP.NET (blé), com servidores Linux (show), bancos de dados modernos (show) e usando Git para controle de versão (show). O coordenador e o gerente também eram analistas de TI, os caras da equipe eram de minha idade, e tinha muito, muito trabalho a ser feito.

(Som de armadilha sendo acionada)

E assim amiguinhos, um desempregado convicto foi reassimilado pelo sistema.

Minha mãe ficou mega feliz, minha sogra ficou feliz, e todos os membros da família que se preocupavam com meu futuro, apaziguaram-se. Um arco-íris encantado decorou o céu de Joinville. Enquanto isso, eu e a Mog estávamos curiosos para saber quanto tempo eu duraria lá dentro…

— ∞ —

Em setembro de 2014 completei um ano de prefeitura.

A imagem (preconceito) que eu tinha, do funcionário público preguiçoso, se desfez. Há muito trabalho a fazer e muita gente disposta a trabalhar pesado. As maçãs podres existem, claro, mas são a minoria.

Trabalhei bastante, aprendi tecnologias novas (Rails), velhas (Oracle) e pude aplicar e aprimorar meu conhecimento em várias áreas nerds. Também reaprendi a trabalhar em grupo, após tantos anos seguindo solo.

A maior parte desse primeiro ano eu fui o programador responsável pelo sistema de controle imobiliário da cidade, que gerencia imóveis, proprietários, logradouros, mapas, fotos, certidões, relatórios…

Me orgulho de ter conseguido migrar o seu enorme banco de dados de Oracle (caríssimo) para o PostgreSQL (gratuito), poupando os cofres públicos desse gasto.

É o maior sistema que já mexi, com centenas de arquivos-fonte e centenas de tabelas no banco de dados. É um sistema legado, criado na jurássica versão 1 do Ruby on Rails por uma empresa terceira. O maior desafio foi entender o seu funcionamento, pois não há documentação (claro), o código não é bonito nem comentado, e em boa parte não adere ao MVC nem às convenções do Rails.

Atualizar a versão do Rails (1→4) seria um sonho, mas… complicado.

Atualização: Em 2015, após meses de estudos e trabalho e mais de 300 commits, consegui fazer a migração do sistema para o Rails 4.2! Fiz uma palestra sobre a migração, aqui estão os slides.

— ∞ —

Em agosto de 2014 fui convidado para ser o coordenador do meu setor.

Ser chefe não é o meu perfil (eu gosto de executar, não delegar), mas aceitei pelo desafio e pelo aprendizado. O cargo mudou, o salário aumentou e passei a trabalhar 8h (ou mais) por dia.

Até hoje estou lá, aprendendo a gerenciar chamados, pessoas e projetos. Não estou feliz nessa nova rotina, mas vale pela experiência.

Atualização: Não durou muito… Fiquei 5 meses como coordenador, então pedi pra sair. Eu estava infeliz e estressado, sem tempo para programar, somente lidando com pessoas e reuniões. Voltei ao meu cargo normal de programador e o mundo voltou a ficar colorido.

— ∞ —

Então é isso. Passei de desempregado profissional a funcionário público. Por enquanto :)

Ah, antes que eu me esqueça: meu desktop no trabalho é um Windows 7 :P

— EOF —

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